terça-feira, 18 de novembro de 2008

Grandes Vultos

Oh! Rebuceteio (1984) é exemplar típico deste período de exceção do cinema brasileiro.
A glória e a decadência da Boca do Lixo – o mais importante centro produtor de cinema brasileiro nos anos 70 e 80 – encontram sua encruzilhada na produção de filmes de sexo explícito a partir de 1981, quando Raffaelle Rossi lança “Coisas Eróticas”, sucesso de público por conta das cenas “explícitas” enxertadas pelo diretor.
No embalo de “O Império dos Sentidos”, filme de Nagisa Oshima que foi exibido no Brasil através de um mandado judicial, os produtores da Boca haviam descoberto o caminho das pedras – e passaram a realizar filmes com conteúdo pornográfico, que burlavam a proibição oficial e faziam bilheteria antes que a censura conseguisse reagir.
Some-se a isso a esculhambação brasileira, que permitia que os filmes pornôs – brasileiros ou estrangeiros – passassem em qualquer cinema das grandes cidades (não apenas em salas especiais, como ocorre na maioria dos países do mundo), e gradativamente o cinema da Boca fez a transição dos filmes de conteúdo erótico, mas cheios de enredo, para o apelo superficial à pornografia pura e simples.
Paradoxo, aquilo que pouco antes se mostrou uma saída viável para gerar mais dinheiro, foi justamente o que matou a indústria auto-sustentável da Boca do Lixo paulistana. Massacrados pelas produções pornográficas estrangeiras, que chegavam aqui a preços mais baratos, os pornôs nacionais foram deixando de ser feitos e no final da década de 80, a Boca – intoxicada, estigmatizada e esvaziada pelo modelo fácil e de baixo custo – finalmente desapareceu.
“Oh! Rebuceteio” (1984) é exemplar típico deste período de exceção do cinema brasileiro, mas que, produzido e dirigido por Cláudio Cunha, salva-se na fronteira entre o inteligente e o execrável.
Cheio de referências sutis a universos culturais estranhos ao público que o consumiu, não é errado dizermos que vinte e poucos anos depois, o filme ainda não fechou seu ciclo, permanecendo em busca de reconhecimento, a ser revisto em mostras e exibições cult com o mesmo olhar cuidadoso que devotamos a Tinto Brass ou às produções setentistas estreladas por Brigitte Lahaie.
Repleto de meta-linguagem, espécie de “A Chorus Line” sem vergonha, “Oh! Rebuceteio” nos remete a todas aquelas histórias que ouvimos desde a infância sobre a liberdade sexual no meio artístico, notadamente no teatral. É este o mote para o semi-exploitation de Cunha: uma peça, um diretor com idéias de psicanálise reichiana e um elenco de jovens entre 20-25 anos ávidos pela fama.
O próprio Cláudio Cunha faz o papel de Nenê Garcia: diretor do filme interpretando o diretor da peça. O contraponto são figurantes, corpos em fúria. A atriz que vai ganhar o papel principal, sua mãe, o vilão homossexual enrustido. Nada, no entanto, é levado a sério e todo o conflito é relativizado (e, pode-se dizer anestesiado) nas intensas orgias de sexo grupal, em todas as combinações possíveis.
Nenê Garcia é um guru da liberdade, ordena imperativamente que o grupo se solte, se liberte, enquanto ele mesmo se mantém, com pudor, nas sombras. O elenco está em suas mãos, concretizando o comando de “liberdade total” exigido pelo mestre. Transam até cansarem, em cenas de plástica cuidadosa, realizadas por alguém com evidente talento para filmar. O grande cuidado artesanal torna o sexo agradável de ser assistido, mesmo pelo espectador que não esteja minimamente interessado em voyeurismo. E os diálogos são claros, engraçados e fazem pensar além da história narrada.
Notável também é pensarmos que “Oh! Rebuceteio” foi rodado em meados de 1983, mais ou menos na época em que a Aids se espalhava pelo mundo. No Brasil chegaria com força total por volta de 1985, de modo que o discurso pesado a favor do sexo sem freios era uma espécie de canto dos cisnes, tornando o filme ainda mais interessante.
Baseado na peça “Oh, Calcutá!”, o título – que por extensão é o título da peça dentro do filme – soa quase inesquecível, lembrando um jogo de palavras barato ou o famoso termo lésbico que designa a ciranda de sexo entre várias mulheres. Mas citado durante a trama, ficamos sabendo na cena final que "rebuceteio, no dicionário, é traduzido como grande confusão. Grande confusão é a própria vida, é isto aqui... um rebuceteio” – todos se congratulam e o pano se fecha.
Com trilha-sonora de Zé Rodrix, montagem de Éder Mazzini (o mesmo de “Amor Estranho Amor” e “Anjos do Arrabalde”) e filmado no Teatro Procópio Ferreira – onde Cláudio Cunha estava em cartaz com a peça “O Analista de Bagé” – este foi o último trabalho do diretor na tela grande. Quando nos anos seguintes Cunha se dedicou ao teatro, também com grande sucesso, deixou para trás uma filmografia pequena mas diversificada, que com certeza será lembrada entre os altos e baixos na produção daquele tempo pela criatividade e ousadia no trato cinematográfico.
Helena Ramos é uma das maiores musas das pornochanchadas, comédias eróticas que reinaram no cinema nacional nos anos 70, e que lotavam as salas de cinema e desagradavam a crítica. A atriz tem a marca fabulosa de 39 filmes em apenas 10 anos de carreira, sendo que foi dirigida pelos maiores expoentes do gênero: Jean Garret, Ody Fraga, Fauzi Mansur e David Cardoso. Afora as pornochanchadas, foi dirigida também por Carlos Coimbra e Walter Hugo Khouri.
“As Cangaceiras Eróticas” foi o filme de estréia de Helena Ramos, em 1974, e no mesmo ano participou de mais três trabalhos. Até 1984 - data até agora de seu último filme, “Volúpia de Mulher” (vide anexo foto 1) - a atriz construiu uma carreira ininterrupta, chegando a filmar uma média de cinco títulos por ano. Antes de ser atriz, Helena Ramos foi uma das tele moças do programa Sílvio Santos. O curioso, é que ela era muito tímida, pois foi educada em colégio de freiras, e por isso teve dificuldade com a nudez em seus primeiros filmes.
Uma das particularidades de Helena Ramos, e que a destacou no gênero pornochanchada, era o contraste entre o rosto ingênuo e a voz de criança com o corpo escultural e o apelo sexual amplamente utilizado nos filmes. Seus maiores momentos foram os filmes “Mulher Mulher”, “Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel”, “A Mulher Sensual” e, sobretudo, “Mulher Objeto”.

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