terça-feira, 18 de novembro de 2008

PORNOCHANDA
Década de 70 - A eclosão de um cinema popular numa era de austeridade política

A década de 70 foi marcada pelo período da ditadura militar, em que a censura na TV, no teatro, no rádio e principalmente no cinema foi totalmente imposta pelo governo militar. Em contraste, engendra-se nessa época um novo tipo de de cinema, a Pornochancha ou a Boca do Lixo, que tinha como temas recorrentes a malandragem, o adultério, o travestismo,o tráfico de drogas, a bissexualidade feminina e, se valendo de uma linguagem que, do besteirol, passando pela brejeirice, ia até a picardia, explorando dessa maneira, o lado sexual de seus telespectadores. Segundo o cineasta João Callegaro, "o cinema da Boca-do-Lixo é um cinema cafajeste" (SUGIMOTO, 2002:3),
Mas será que esse movimento cultural foi realmente de extrema importância para sociedade, num período de falta de democracia e liberdade de expressão ou foi apenas um signo que representou os desejos sexuais reprimidos de homens e mulheres da mesma época?
Teria sido a Pornochanchada uma simbologia de violência moral ou cultural no cinema brasileiro?
Em nossa pesquisa, iremos entrevistar profissionais da área de comunicação e cinema, realizar pesquisas em livros e em outras fontes, analisando e estudando todas as informações recebidas, a fim de levantar hipóteses sobre o possível impacto negativo que o gênero Pornochanchada causou ao cinema brasileiro na década de 70. É de suma importância em nossa pesquisa, mostrar e analisar o contexto que o fenômeno da Pornochanchada foi para o cinema brasileiro na década de 70, trazendo características essenciais para o Cinema no Brasil, e que permanecem até hoje.
A Origem do Cinema

No século XVIII, em 1832, Joseph Plateau, um cientista belga, criou o “Fenacistoscópio” que foi o primeiro aparelho a produzir ilusão de movimento num desenho.Com dois discos em diferentes eixos.Desenhou ao longo da borda de um disco um objeto e no outro fez orifícios. Quando ambos os discos eram girados na mesma velocidade, quem olhasse através dos orifícios , tinha a impressão de que os desenhos se moviam.
Em 1887, Thomas Edson começou a trabalhar em um aparelho para fazer com que as fotografias parecessem mover-se. Anos depois um norte-americano, chamado Hannibal Goodwin, desenvolveu um filme a base a base de celulóide transparente. Essa base podia ser coberta por uma película de produtos químicos sensíveis à luz com a capacidade de mover-se rapidamente.
No século XX, mais precisamente em meados de 1895, surge uma invenção capaz de marcar um novo tempo. Um aparelho chamado “Cinematografa” criado por August e Loue Liemiérre, e pela primeira vez um filme foi projetado publicamente. O cinema foi a primeira manifestação a surgir dentro de um sistema industrial. Seu alto custo, tecnologia de precisão, transformação química de matéria prima, concentração de capitais e arregimentação de mão-de-obra em grande número e com especialização técnica que só são viáveis numa estrutura de produção em série. Daí a dicotomia entre obra de arte e bem de consumo.
O cinema carrega todos os signos pertinentes à arte, e é através deles que se resultará na manufatura um bem de consumo denominado “Filme”.
Inicialmente o cinema foi porta voz de um período onde a burguesia apresentou o seu poder de ação. Sua dinâmica ocorreu simultaneamente com as invenções como: o avião, o telefone, a eletricidade. Não é possível imaginar que a eletricidade foi gerada apenas para o bem estar de uma elite; seu autocusto de instalação só é viável se aplicada em grande escala. O coletivo passa a ser alvo de um momento onde o consumo é dirigido às grandes massas.
A prioridade de um filme é feita visando os espectadores em pontual, independente da classe social que representa, sem distinção de raça, credo ou língua. Seu caráter universal não uma opção, mas sim, uma necessidade.
Todos os filmes eram feitos de um tamanho padrão, pois desta maneira um filme feito no país podia ser exibido em outro. Como o cinema era mudo, não havia problema de diferença de idiomas, era só trocar a legenda.
O Cinema em Hollywood

Com o recesso do cinema europeu durante a 1ª Guerra Mundial, a produção de filmes concentra-se em Hollywood, na Califórnia. A produção em série de filmes para o mercado cinematográfico comercial teve origem em Hollywood que começou a se destacar no mundo do cinema produzindo e importando diversos filmes.
Alguns produtores independentes, imigraram de Nova York para Hollywood, devido as condições “ ideais”: dias ensolarados e diferentes paisagens. Assim nasceu a chamada “Meca do Cinema”. E Hollywood transforma-se no mais importante centro cinematográfico do planeta. Nessa época foi fundado um dos estúdios mais importantes do mundo a (Fox Universal, Paramount).

O Cinema mudo

Durante quase trinta anos o cinema tornou-se na maior indústria de massas, e, pasme-se, numa das maiores artes do novo século. E o fez sem recorrer ao som. Não que os filmes fossem, qual uma igreja em estado de oração interior, apologistas do silêncio. As exibições em teatros, óperas ou feiras dos primeiros filmes eram acompanhadas invariavelmente de música de fundo, habitualmente da autoria de um pianista que aplicava a sua própria visão das cenas do filme às teclas do piano. Logo, ver um filme em salas diferentes implicaria sempre ouvir um acompanhamento sonoro diferente. Ao longo do tempo os próprios sons do piano foram-se padronizando, (todos sabiam que ao ouvir determinado acorde estavam perante o vilão) atirando para o chão a teoria de que o mudo era silêncio. Não o era nem nunca o foi. E o som tinha de fato o seu papel no cinema mudo!



Cinema falado

As primeiras experiências de sonorização, feitas por Thomas Edison, em 1889, são seguidas pelo grafonoscópio de Auguste Baron (1896) e pelo cronógrafo de Henri Joly (1900), sistemas ainda falhos de sincronização imagem-som. O aparelho do americano Lee de Forest, de gravação magnética em película (1907), que permite a reprodução simultânea de imagens e sons, é comprado em 1926 pela Warner Brothers. A companhia produz o primeiro filme com música e efeitos sonoros sincronizados - Don Juan (Don Juan - 1926), de Alan Crosland, o primeiro com passagens faladas e cantadas - O Cantor de Jazz (The Jazz Singer - 1927), também de Crosland, com Al Jolson, grande nome da Broadway, e o primeiro inteiramente falado - Luzes de Nova York, de Brian Foy (Lights of New York - 1928).

As Cores no cinema


A cor esteve presente no cinema desde suas origens. Os primeiros processos consistiam em colorir à mão - um a um, os fotogramas no positivo preto e branco. Os filmes realizados desta forma são chamados de "colorizados", em contraposição aos "coloridos", onde as cores são captadas pelo processo fotográfico.
Edison experimentou colorizar seus filmes, mas logo abandonou o processo por este utilizar muita mão de obra e render pouco.
Ainda no início do século passado a Pathé francesa colorizava os filmes com a aplicação manual no negativo, quadro a quadro, de stencils coloridos que dotavam as cópias de áreas coloridas. Todos os processos de colorização tinham em comum o fato de serem artesanais, lentos e muito dispendiosos, além de apresentarem cores inteiramente artificiais.
.Muitos foram os processos de cinematografia à cores patenteados na Europa e nos EUA. As tentativas mais bem sucedidas de registrar a cor natural durante a fotografia do filme foram desenvolvidas a partir de 1915 nos EUA pela Technicolor.Primeiramente registrando apenas o verde e o vermelho em duas películas preto e branco pancromáticas, para depois copiá-las num processo de transferência de pigmentos (dye transfer), estes primeiros processos também não conseguiam reproduzir com exatidão as cores naturais. Embora a pele tivesse uma reprodução cromática satisfatória, o céu e o mar eram reproduzidos em tons de cinza ao invés de azul.

O Cinema Novo

Em meados dos anos 50, um grupo de jovens cineastas brasileiros demonstram a vontade de retratar um cinema que mostrasse a realidade dos problemas socioeconômicos a verdadeira cultura do país.
Caracterizado por baixo custo de produção, alto índice de criatividade, forte impacto de denuncia e mentalidade revolucionária, esse movimento marcou o cinema brasileiro e ficou conhecido como “Novo Cinema”. Enfrentando grandes tabus e revelando diversos talentos.
Entretanto, com a dificuldade do período de repressão política que o Brasil sofria, O Cinema Novo não resistiu as pressões impostas, tendo inclusive alguns desses cineastas exilados.
Cinema Brasileiro

Na cidade do Rio de Janeiro em 8 de Julho de 1896, acontece a primeira sessão de cinema no Brasil.
As primeiras imagens possivelmente registradas em solo brasileiro, foram feitas,da Baía de Guanabara quando Afonso Segreto retornou de uma viajem a Europa , onde ele teria feito um estagio em Paris nos estúdios da Pathé. Essas imagens registras por Segreto através de uma câmera que ele havia trazido da Europa, foram noticiadas pelo A Gazeta em 19 de julho de 1898.
Os primeiros Filmes de ficção datam 1908, onde encenavam pequenos trechos de operas e operetas com intérpretes atrás da tela para dar ao filme o áudio ainda não existente. Essa foi a era do cinema mudo.
A partir desses primeiros registros, sucederam-se então outros gêneros de estilo de produção: os cômicos,, os de imitação estrangeira como os policiais os melodramas, os de temas religiosos e os carnavalescos. E é ai que o cinema brasileiro sofre a sua grande transformação.
Na busca pela independência e com a decadência do mercado estrangeiro no cinema brasileiro. Passamos por um novo período, onde uma nova era de um ciclo regional ganha forças, gerando filmes produzidos em diversas regiões do país.
Na década de 30 surgiram as primeiras companhias cinematográficas brasileiras. Em 1930 Adhemar Gonzaga, fundou a Cinédia, que assegurou a continuidade do cinema brasileiro.

Chanchadas

Surgiram na década de 40 no Rio de Janeiro, produzidas pelas Companhias Cinematográficas Atlântida. Possuíam as mesmas características do teatro revista – a sátira e o deboche. Importavam também influências de Hollywood.
Com linguagem popular e muitas gírias, abusavam de criticas aos governos e aos problemas do dia-a-dia, com a importância de dar um toque nacionalista.
Muito bem sucedidas apesar da competição das superproduções do mercado americano que chegavam a exportar para o mais de 1.000 filmes por ano. E entrou em decadência a partir da década de 80.
As Pornochanchadas

Surgiram na década de 70 em São Paulo. Um gênero empregado ao cinema brasileiro. Possuindo uma produção bem numerosa e comercial. A mais conhecida produção era a da chamada “Boca de Lixo” região de prostituição existente na zona central de São Paulo. Chamada assim por trazer vários elementos das Chanchadas, porém possuíam alta dose de erotismo muitas vezes comparada ao gênero pornô, embora não houvesse de fato cenas de sexo explícitos nos filmes. Censurados, desta vez, não por questões políticas, mas, por questões moralistas, os filmes eram transmitidos obedecendo a algumas exigências impostas aos produtores, tais como mostrar apenas um seio de cada vez. Alguns filmes foram totalmente retalhados pelos cortes, o que os tornava incompreensíveis.
Entrou em decadência na década de 80. Com o fim da censura em 1984, o gênero foi substituído pelos filmes pornográficos exibidos em salas de cinemas especiais, e com o surgimento do videocassete alguns atores e atrizes que não conseguiram mudar de gênero ou partir para a TV, foram perdendo a fama e o estrelato.


Surgimento e auge

Surgiram como filmes feitos para a grande massa muito influenciada pelas comédias populares italianas. A cota de exibição obrigatória de filmes brasileiros, uma das muitas medidas de desenvolvimento econômico e cultural criadas pela chamada
Ditadura Militar, dava espaço para o desenvolvimento desse gênero - a lei obrigava as salas de exibição a exibir uma cota de filmes nacionais por ano.
O sucesso de público também foi essencial para o gênero, pois possibilitou que os filmes ficassem por mais semanas em cartaz. Ao contrário do que comumente se pensa, eles não eram financiados pela
Embrafilme, mas sim por produtores independentes, comerciantes locais, ou quem mais se interessasse, porque eram de fato muito lucrativos.
A pornochanchada atraiu milhões de espectadores ao cinema na
década de 70, fazendo com que atores e atrizes alcançassem o estrelato. Alguns atores e atrizes conseguiram migrar para a televisão e para os filmes mais sérios, mas outros permaneceram apenas no cinema até o fim desse período.
Dentre os atores que conseguiram mudar de estilo, destacam-se
Sônia Braga, Nádia Lippi, Antonio Fagundes, Reginaldo Faria e Vera Fischer, sendo que esta chegou a ter problemas em sua cidade natal quando começou a participar de pornochanchadas. Dentre os filmes realizados destacam-se as adaptações dos contos de Nelson Rodrigues, que se auto-denominava o anjo pornográfico.
Decadência

A pornochanchada iniciou sua decadência nos
anos 80, com o fim da obrigatoriedade das cotas de exibição de fitas nacionais, o surgimento do videocassete e a exibição de filmes de sexo explícito nos cinemas.
Com o fim delas acabou também a fama e o estrelato de alguns atores e atrizes que não conseguiram mudar de estilo ou ir para a TV. Alguns conseguiram pequenos trabalhos na televisão e no teatro, como
Matilde Mastrangi, Xuxa , David Cardoso, Nicole Puzzi e Aldine Muller, enquanto outros simplesmente desapareceram, como Helena Ramos, Zaira Bueno, Carlo Mossy, Rossana Ghessa, Zilda Mayo e Francisco Di Franco.
Segundo
Matilde Mastrangi (1), o grande problema para eles é que não tinham talento para continuar fora da pornochanchada.

Conseqüências

A maior conseqüência do gênero foi marcar o
cinema brasileiro como sinônimo de um cinema repleto de nudez e de palavrões. Durante os anos 90 foi comum as emissoras de tv exibirem filmes nacionais em horários avançados, dando a entender que seriam como sessões eróticas. Destacam-se aqui os programas "Sala Especial", na TV Record, no começo dos anos 80, e "Cine Brasil", na CNT, entre 1997 e 1998.
Grandes Vultos

Oh! Rebuceteio (1984) é exemplar típico deste período de exceção do cinema brasileiro.
A glória e a decadência da Boca do Lixo – o mais importante centro produtor de cinema brasileiro nos anos 70 e 80 – encontram sua encruzilhada na produção de filmes de sexo explícito a partir de 1981, quando Raffaelle Rossi lança “Coisas Eróticas”, sucesso de público por conta das cenas “explícitas” enxertadas pelo diretor.
No embalo de “O Império dos Sentidos”, filme de Nagisa Oshima que foi exibido no Brasil através de um mandado judicial, os produtores da Boca haviam descoberto o caminho das pedras – e passaram a realizar filmes com conteúdo pornográfico, que burlavam a proibição oficial e faziam bilheteria antes que a censura conseguisse reagir.
Some-se a isso a esculhambação brasileira, que permitia que os filmes pornôs – brasileiros ou estrangeiros – passassem em qualquer cinema das grandes cidades (não apenas em salas especiais, como ocorre na maioria dos países do mundo), e gradativamente o cinema da Boca fez a transição dos filmes de conteúdo erótico, mas cheios de enredo, para o apelo superficial à pornografia pura e simples.
Paradoxo, aquilo que pouco antes se mostrou uma saída viável para gerar mais dinheiro, foi justamente o que matou a indústria auto-sustentável da Boca do Lixo paulistana. Massacrados pelas produções pornográficas estrangeiras, que chegavam aqui a preços mais baratos, os pornôs nacionais foram deixando de ser feitos e no final da década de 80, a Boca – intoxicada, estigmatizada e esvaziada pelo modelo fácil e de baixo custo – finalmente desapareceu.
“Oh! Rebuceteio” (1984) é exemplar típico deste período de exceção do cinema brasileiro, mas que, produzido e dirigido por Cláudio Cunha, salva-se na fronteira entre o inteligente e o execrável.
Cheio de referências sutis a universos culturais estranhos ao público que o consumiu, não é errado dizermos que vinte e poucos anos depois, o filme ainda não fechou seu ciclo, permanecendo em busca de reconhecimento, a ser revisto em mostras e exibições cult com o mesmo olhar cuidadoso que devotamos a Tinto Brass ou às produções setentistas estreladas por Brigitte Lahaie.
Repleto de meta-linguagem, espécie de “A Chorus Line” sem vergonha, “Oh! Rebuceteio” nos remete a todas aquelas histórias que ouvimos desde a infância sobre a liberdade sexual no meio artístico, notadamente no teatral. É este o mote para o semi-exploitation de Cunha: uma peça, um diretor com idéias de psicanálise reichiana e um elenco de jovens entre 20-25 anos ávidos pela fama.
O próprio Cláudio Cunha faz o papel de Nenê Garcia: diretor do filme interpretando o diretor da peça. O contraponto são figurantes, corpos em fúria. A atriz que vai ganhar o papel principal, sua mãe, o vilão homossexual enrustido. Nada, no entanto, é levado a sério e todo o conflito é relativizado (e, pode-se dizer anestesiado) nas intensas orgias de sexo grupal, em todas as combinações possíveis.
Nenê Garcia é um guru da liberdade, ordena imperativamente que o grupo se solte, se liberte, enquanto ele mesmo se mantém, com pudor, nas sombras. O elenco está em suas mãos, concretizando o comando de “liberdade total” exigido pelo mestre. Transam até cansarem, em cenas de plástica cuidadosa, realizadas por alguém com evidente talento para filmar. O grande cuidado artesanal torna o sexo agradável de ser assistido, mesmo pelo espectador que não esteja minimamente interessado em voyeurismo. E os diálogos são claros, engraçados e fazem pensar além da história narrada.
Notável também é pensarmos que “Oh! Rebuceteio” foi rodado em meados de 1983, mais ou menos na época em que a Aids se espalhava pelo mundo. No Brasil chegaria com força total por volta de 1985, de modo que o discurso pesado a favor do sexo sem freios era uma espécie de canto dos cisnes, tornando o filme ainda mais interessante.
Baseado na peça “Oh, Calcutá!”, o título – que por extensão é o título da peça dentro do filme – soa quase inesquecível, lembrando um jogo de palavras barato ou o famoso termo lésbico que designa a ciranda de sexo entre várias mulheres. Mas citado durante a trama, ficamos sabendo na cena final que "rebuceteio, no dicionário, é traduzido como grande confusão. Grande confusão é a própria vida, é isto aqui... um rebuceteio” – todos se congratulam e o pano se fecha.
Com trilha-sonora de Zé Rodrix, montagem de Éder Mazzini (o mesmo de “Amor Estranho Amor” e “Anjos do Arrabalde”) e filmado no Teatro Procópio Ferreira – onde Cláudio Cunha estava em cartaz com a peça “O Analista de Bagé” – este foi o último trabalho do diretor na tela grande. Quando nos anos seguintes Cunha se dedicou ao teatro, também com grande sucesso, deixou para trás uma filmografia pequena mas diversificada, que com certeza será lembrada entre os altos e baixos na produção daquele tempo pela criatividade e ousadia no trato cinematográfico.
Helena Ramos é uma das maiores musas das pornochanchadas, comédias eróticas que reinaram no cinema nacional nos anos 70, e que lotavam as salas de cinema e desagradavam a crítica. A atriz tem a marca fabulosa de 39 filmes em apenas 10 anos de carreira, sendo que foi dirigida pelos maiores expoentes do gênero: Jean Garret, Ody Fraga, Fauzi Mansur e David Cardoso. Afora as pornochanchadas, foi dirigida também por Carlos Coimbra e Walter Hugo Khouri.
“As Cangaceiras Eróticas” foi o filme de estréia de Helena Ramos, em 1974, e no mesmo ano participou de mais três trabalhos. Até 1984 - data até agora de seu último filme, “Volúpia de Mulher” (vide anexo foto 1) - a atriz construiu uma carreira ininterrupta, chegando a filmar uma média de cinco títulos por ano. Antes de ser atriz, Helena Ramos foi uma das tele moças do programa Sílvio Santos. O curioso, é que ela era muito tímida, pois foi educada em colégio de freiras, e por isso teve dificuldade com a nudez em seus primeiros filmes.
Uma das particularidades de Helena Ramos, e que a destacou no gênero pornochanchada, era o contraste entre o rosto ingênuo e a voz de criança com o corpo escultural e o apelo sexual amplamente utilizado nos filmes. Seus maiores momentos foram os filmes “Mulher Mulher”, “Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel”, “A Mulher Sensual” e, sobretudo, “Mulher Objeto”.
As dez melhores pornochanchadas dos anos 70

Elas eram um refresco naqueles tempos de chumbo. Repare nas fichas técnicas: surpreendentes, não?

1. Os paqueras
Marco zero da pornochanchada, o filme na verdade é do fim da década de 60. Direção de Reginaldo Farias, com o próprio. Causou frisson por mostrar uma moça que fazia sexo simplesmente por fazer. Com Leila Diniz, Valentina Godói, Cristina Wagner (foto) e outras beldades.

2. A viúva virgem
A segunda melhor pornochanchada, de Pedro Rovai, com Adriana Prieto e Carlos Imperial. Viúva é vigiada, na cama, pelo fantasma do marido.

3. A superfêmea
Com roteiro de Lauro Cesar Muniz, o auge de Vera Fischer em sua fase pornochanchada. Laboratório tenta criar uma pílula para os homens.

4. Lua-de-mel e amendoim
Com o galã Carlos Mossy, sempre cercado de lindas mulheres, entre as quais Darlene Glória, Renata Sorrah e Vera Gimenez.

5. Ainda agarro esta vizinha
Ambientada num prédio de Copacabana, esta pornochanchada tinha roteiro de Oduvaldo Vianna Filho e, no elenco, Cecil Thiré.


6. Um uísque antes, um cigarro depois

O argumento era de Dalton Trevisan e Orígenes Lessa. Uma trama cheia de traições, estrelada pela atriz Sandra Bréa.

7. Os machões
A história de três falsas bonecas, nas mais grotescas e hilariantes situações. Um filme com Reginaldo Farias, Flavio Migliaccio e Erasmo Carlos.

8. Eu transo, ela transa
Direção de Pedro Camargo e trilha do bossanovista Carlos Lyra. Chefe de família vira cúmplice dos amores secretos de um industrial.

9. O roubo das calcinhas

Com Marco Nanini e Lady Francisco. Assalto a um hotel suspeito é realizado por uma quadrilha que utiliza como isca um travesti.

10. A dama do lotação

Neville de Almeida, diretor, não acha que tenha feito uma pornochanchada. Mas Sonia Braga transa mais de dez vezes...
Ditadura Militar no Brasil

Podemos definir a Ditadura Militar como sendo o período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar.
O golpe militar de 1964

A crise política se arrastava desde a renúncia de Jânio Quadros em 1961. O vice de Jânio era João Goulart, que assumiu a presidência num clima político adverso. O governo de João Goulart (1961-1964) foi marcado pela abertura às organizações sociais. Estudantes, organizações populares e trabalhadores ganharam espaço, causando a preocupação das classes conservadoras como, por exemplo, os empresários, banqueiros, Igreja Católica, militares e classe média. Todos temiam uma guinada do Brasil para o lado socialista. Vale lembrar, que neste período, o mundo vivia o auge da Guerra Fria.

Este estilo populista e de esquerda, chegou a gerar até mesmo preocupação nos EUA, que junto com as classes conservadoras brasileiras, temiam um golpe comunista.

Os partidos de oposição, como a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD), acusavam Jânio de estar planejando um golpe de esquerda e de ser o responsável pela carestia e pelo desabastecimento que o Brasil enfrentava.
No dia 13 de março de 1964, João Goulart realiza um grande comício na Central do Brasil (Rio de Janeiro), onde defende as Reformas de Base. Neste plano, Jânio prometia mudanças radicais na estrutura agrária, econômica e educacional do país.
Seis dias depois, em 19 de março, os conservadores organizam uma manifestação contra as intenções de João Goulart. Foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu milhares de pessoas pelas ruas do centro da cidade de São Paulo.
O clima de crise política e as tensões sociais aumentavam a cada dia. No dia 31 de março de 1964, tropas de Minas Gerais e São Paulo saem às ruas. Para evitar uma guerra civil, Jânio deixa o país refugiando-se no Uruguai. Os militares tomam o poder. Em 9 de abril, é decretado o Ato Institucional Número 1 ( AI-1 ). Este, cassa mandatos políticos de opositores ao regime militar e tira a estabilidade de funcionários públicos.
Governo Castello Branco

Castello Branco, general militar, foi eleito pelo Congresso Nacional, Presidente da República em 15 de abril de 1964. Em seu pronunciamento, declarou defender a democracia, porém ao começar seu governo, assume uma posição autoritária.
Estabeleceu eleições
indiretas para presidente, além de dissolver os partidos políticos. Vários parlamentares federais e estaduais tiveram seus mandatos cassados, cidadãos tiveram seus direitos políticos e constitucionais cancelados e os sindicatos receberam intervenção do governo militar. Em seu governo, foi instituído o bipartidarismo. Só estavam autorizados o funcionamento de dois partidos : Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Enquanto o primeiro era de oposição, de certa forma controlada, o segundo representava os militares.
O governo militar impõe, em janeiro de 1967, uma nova constituição
para o país. Aprovada neste mesmo ano, a Constituição de 1967 confirma e institucionaliza o regime militar e suas formas de atuação.

Governo Costa e Silva

Em 1967, assume a presidência o general Arthur da Costa e Silva, após ser eleito indiretamente pelo Congresso Nacional. Seu governo é marcado por protestos e manifestações sociais. A oposição ao regime militar cresce no país. A UNE ( União Nacional dos Estudantes ) organiza, no Rio de Janeiro, a Passeata dos Cem Mil. Em Contagem (MG) e Osasco (SP), greves de operários paralisam fábricas em protesto ao regime militar.
A guerrilha urbana começa a se organizar, formada por jovens idealistas de esquerda, assaltam bancos e seqüestram embaixadores para obterem fundos para o movimento de oposição armada.
No dia 13 de dezembro de 1968, o governo decreta o Ato Institucional Número 5
(AI-5). Este foi o mais duro do governo militar, pois aposentou juízes, cassou mandatos, acabou com as garantias do habeas-corpus e aumentou a repressão militar e policial.

Governo da Junta Militar

Doente, Costa e Silva foi substituído por uma junta militar formada pelos ministros Aurélio de Lira Tavares (Exército), Augusto Rademaker (Marinha) e Márcio de Sousa e Melo (Aeronáutica).
Dois grupos de esquerda, O MR-8 e a ALN seqüestram o embaixador dos EUA Charles Elbrick. Os guerrilheiros exigem a libertação de 15 presos políticos, exigência conseguida com sucesso. Porém, em 18 de setembro, o governo decreta a Lei de Segurança Nacional. Esta lei decretava o exílio e a pena de morte em casos de "guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva".
No final de 1969, o líder da ALN, Carlos Mariguella, foi morto pelas forças de repressão em São Paulo.

Governo Medici

Em 1969, a Junta Militar escolhe o novo presidente: o general Emílio Garrastazu Medici. Seu governo é considerado o mais duro e repressivo do período, conhecido como "anos de chumbo". A repressão à luta armada cresce e uma severa política de censura é colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas
e outras formas de expressão artística são censuradas.
Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores são investigados, presos, torturados ou exilados do país. O DOI-Codi (Destacamento de Operações e Informações e ao Centro de Operações de Defesa Interna ) atua como centro de investigação e repressão do governo militar.
Ganha força no campo a guerrilha rural, principalmente no Araguaia. A guerrilha do Araguaia é fortemente reprimida pelas forças militares.
2.6 - O Milagre Econômico

Na área econômica o país crescia rapidamente. Este período que vai de 1969 a 1973 ficou conhecido com a época do Milagre Econômico. O PIB brasileiro crescia a uma taxa de quase 12% ao ano, enquanto a inflação
beirava os 18%. Com investimentos internos e empréstimos do exterior, o país avançou e estruturou uma base de infra-estrutura. Todos estes investimentos geraram milhões de empregos pelo país. Algumas obras, consideradas faraônicas, foram executadas, como a Rodovia Transamazônica e a Ponte Rio-Niterói.
Porém, todo esse crescimento teve um custo altíssimo e a conta deveria ser paga no futuro. Os empréstimos estrangeiros geraram uma dívida externa elevada para os padrões econômicos do Brasil.



Governo Geisel

Em 1974 assume a presidência o general Ernesto Geisel que começa um lento processo de transição rumo à democracia. Seu governo coincide com o fim do milagre econômico e com a insatisfação popular em altas taxas. A crise do petróleo e a recessão mundial interferem na economia brasileira, no momento em que os créditos e empréstimos internacionais diminuem.
Geisel anuncia a abertura da política lenta, gradual e segura. A oposição política começa a ganhar espaço. Nas eleições de 1974, o MDB conquista 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e ganha a prefeitura da maioria das grandes cidades.
Os militares de linha dura, não contentes com os caminhos do governo Geisel, começam a promover ataques clandestinos aos membros da esquerda. Em 1975, o jornalista Vladimir Herzog á assassinado nas dependências do DOI-Codi em São Paulo. Em janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho aparece morto em situação semelhante.
Em 1978, Geisel acaba com o AI-5, restaura o habeas-corpus e abre caminho para a volta da democracia no Brasil.

Governo Figueiredo

A vitória do MDB nas eleições em 1978 começa a acelerar o processo de redemocratização. O general João Baptista Figueiredo decreta a Lei da Anistia, concedendo o direito de retorno ao Brasil para os políticos, artistas e demais brasileiros exilados e condenados por crimes políticos. Os militares de linha dura continuam com a repressão clandestina. Cartas-bomba são colocadas em órgãos da imprensa e da OAB (Ordem dos advogados do Brasil). No dia 30 de Abril de 1981, uma bomba explode durante um show no centro de convenções do Rio Centro. O atentado fora provavelmente promovido por militares de linha dura, embora até hoje nada tenha sido provado. Em 1979, o governo aprova uma lei que restabelece o pluripartidarismo no país. Os partidos
voltam a funcionar dentro da normalidade. A ARENA muda o nome e passa a ser PDS, enquanto o MDB passa a ser PMDB. Outros partidos são criados, como por exemplo: Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT).
A Redemocratização e a Campanha pelas Diretas Já

Nos últimos anos do governo militar, o Brasil apresenta vários problemas. A inflação é alta e a recessão também. Enquanto isso a oposição ganha terreno com o surgimento de novos partidos e com o fortalecimento dos sindicatos.
Em 1984, políticos de oposição, artistas, jogadores de futebol
e milhões de brasileiros participam do movimento das Diretas Já. O movimento era favorável à aprovação da Emenda Dante de Oliveira que garantiria eleições diretas para presidente naquele ano. Para a decepção do povo, a emenda não foi aprovada pela Câmara dos Deputados.
No dia 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral escolheria o deputado Tancredo Neves, que concorreu com Paulo Maluf, como novo presidente da República. Ele fazia parte da Aliança Democrática – o grupo de oposição formado pelo PMDB e pela Frente Liberal.
Era o fim do regime militar. Porém Tancredo Neves fica doente antes de assumir e acaba falecendo. Assume o vice-presidente José Sarney. Em 1988 é aprovada uma nova constituição para o Brasil. A Constituição de 1988 apagou os rastros da ditadura
militar e estabeleceu princípios democráticos no país.
Ditadura Militar no Brasil e o Cinema


É de 1932 a primeira legislação a tratar do cinema em diversos âmbitos e é a precursora de outras medidas introduzidas ao longo dos anos posteriores. Ainda que não estivéssemos vivenciando a ditadura, Getúlio Vargas já dominava a situação política pós Revolução de 30 há dois anos. Não por acaso a ditadura Vargas, período conhecido como Estado Novo e que se iniciou em 1937, foi inclusive justificada como a mais adequada ao país para aquele momento e, ao mesmo tempo, proposta como corretora da linha de evolução histórica. Em outras palavras a Revolução de 1930 representaria o mito que 1937 apresentou como revolução acabada.
É neste contexto que o Estado também começou a organizar o cinema e significativamente a legislação de 1932 refere-se a um decreto, o de número 21.240, e não a uma lei. Tal Decreto contém artigos que sintetizam conveniências de vários setores, tratando desde o cinema educativo até o cinema comercial, da censura até a estruturação de órgãos estatais, o sentido interventor do Decreto era trazer os conflitos expressos para uma solução disciplinadora, centralizadora e sem mediações.
Talvez o mais singular deste decreto seja notar que o que havia de novidade foi usurpado da própria sociedade, pois o governo provisório de 1930 tinha uma concepção bastante nítida da função do cinema e das propostas que vinham se delineando desde os anos 20.
O uso da técnica cinematográfica seja para reformar a sociedade pela via da reforma do ensino, seja para propagar o aspecto integrador/centralizador da ideologia nacionalista ou mesmo o esforço na construção de uma identidade estão alinhados na legislação de forma decisiva. O cinema foi incluído no projeto de integração nacional e desenvolvimento industrial ao ser incorporado como instrumento pedagógico, devendo auxiliar na ação cultural educativa e formativa.
Já durante a ditadura militar é criada a Embrafilme – Empresa Brasileira de Filmes S/A – (1969), uma tentativa de, poder agir nas atividades comerciais ou industriais relacionadas ao cinema e intervir de forma centralizada. O fato de estes organismos terem sido criados durante a ditadura militar dava a sensação de que o governo militar queria monitorar o cinema.
Se a origem das propostas pré-existia ao devir dos dois períodos, o que aproximava cineastas e governo neste período e também durante a ditadura Vargas era o nacionalismo, usando cinema como porta-voz da ideologia nacionalista que se ocupa em identificar uma coletividade histórica em termos da nação e cuja solidariedade é garantida por meio dos fatores étnicos, geográficos e culturais. Os cineastas por sua vez, desejosos de constituir uma indústria cinematográfica no país, reivindicavam apenas acesso dos seus filmes ao público, pois, como diziam, “o cinema nacional vencerá pela qualidade e pela exigência das platéias”.
Pós-64, a questão nacional poderia ser pensada em dois momentos diferenciados, o primeiro quando ainda se procurou estabelecer uma aliança entre as classes para enfrentar o capital estrangeiro e o segundo, a partir da década de 70, quando o Estado se volta para a produção cultural de forma mais acentuada, procurando constituir uma cinematografia nacional, nos dois momentos a intervenção ocorreu no plano da produção, distribuição, importação e exibição e, conseqüentemente, o cinema deixava de ser uma atividade regulada apenas pelas leis do mercado.
Entrevistas

Entrevista realizada com Mário Sérgio de Moraes (vide anexo Foto 2) no dia 03 de Novembro de 2008.


Filho de uma família politizada e estudioso dedicado, o historiador Mário Sérgio de Moraes, 56, lançou recentemente a “História da Imigração Japonesa em Mogi das Cruzes” e planeja escrever um livro que conte a história de Mogi das Cruzes – seu presente para a cidade. Ainda no prelo, mas a ser impresso neste ano, a publicação “Desarquivando a Ditadura Militar”, do grupo LEI - Laboratório de Estudo da Intolerância, da USP, terá um capítulo seu. Nasceu em Jacareí-SP, fez sua graduação, mestrado e doutorado em História pela USP. Veio para Mogi na década de 70 para lecionar na UBC. Professor universitário exerce a profissão há 33 anos e, tem orgulho de passar seu conhecimento para as novas gerações. Desde seu primeiro trabalho, sempre atuou como professor. Atualmente leciona na USP, FAAP e UMC, nesta última há 26 anos.

1-Como você definiria o papel da Pornochanchada no cinema Brasileiro na
Década de 70?

A sociedade vivia numa ferrenha de uma ditadura, onde a censura era um fato e todos os meios de comunicação passavam por um crivo governamental. Isso significou a morte do Cinema Novo. Para que a indústria cinematográfica dentro daquele contexto pudesse sobreviver, foi preciso buscar inspiração dentro do que era chamado antigamente de ‘’ A Boca do Lixo’’, com roteiros extremamente estereotipados, ex: ‘’O Veado’’, ‘’A loira burra’’, ‘’O jovem meio cafajestinho’’. Esses tipos de roteiros eram feitos para que houvesse de certa maneira, muito maior comunicação com o público.

2-Qual a importância desse gênero da análise diacrônica do cinema do Brasil?
Esse cinema revelou grandes artistas da atualidade, como Nuno Leal Maia, Vera Fischer, Sílvio de Abreu, etc. Possibilitou também, a sobrevivência de inúmeros roteiristas da época. Dessa maneira, concluo que esse gênero foi uma fase de transição do cinema brasileiro. Embora, não tenha sido como estilo o melhor do cinema no Brasil. É completamente diferente da chamada ‘’chanchada’’, do chamado ‘’Cinema Novo’’. Mas, era aquilo que na época era possível, isto é, que estava ao alcance dos produtores de cinema.

3-Teria sido a Pornochanchada um signo de liberação sexual de homens e mulheres brasileiros?
Não, pois muito antes do surgimento da Pornochanchada, mais precisamente na década de 60, marcada pelo surgimento dos hippies, Rolling Stones, estilos de vida alternativos, já se discutia a liberdade sexual, etc. Dessa forma, a Pornochanchada não é um Cinema de libertação, ela é ‘’Mercadoria’’, ou seja, ‘’Produto’’. Já que seu objetivo, não era questionar formas alternativas de existência. Por outro lado, a sensualidade começou a ser mais exposta a partir de filmes de Pornochanchada, a mulher passou a ser vista como um objeto de desejo, e não mais como uma pessoa que tenha direitos.
Igualmente importante, nunca as pessoas tiveram tantas relações sexuais como na década de 70, mas isso não está diretamente ligado ao sensualismo mostrado na Pornochanchada, pois ela era como muitos não sabem extremamente conservadora e como ideologia, era moralista. Um exemplo disso é a forma como os gays eram mostrados nos filmes, da maneira mais caricatural e grotesca possível.

4-Você eliminaria da análise histórica do cinema brasileiro, o surgimento da Pornochanchada? Justifique sua resposta.
De jeito nenhum. Porque ela representa um passo na indústria cinematográfica brasileira. E foi na época da ditadura uma válvula de escape para atores, atrizes e roteiristas. Grande parte dos ótimos artistas da atualidade e também de grande peso dramatúrgico, trabalhara no Cinema da Boca do Lixo, já que era impossível naquela época fugir desse padrão, pois eles tinham que sobreviver de alguma forma.

5-Qual é a sua visão da Pornochanchada na década de 70, e atualmente como comunicólogo e historiador?
Eu particularmente não gostava. Aliás, o Cinema da Pornochanchada na época era muito censurado. Era ridículo, pois era pré-primário ou pré- erótico. Não chegava a ser erótico, pois havia todo um contexto nos filmes, e o filme é erótico quando é mostrada a sensualidade nua e crua. Portanto, era um cinema erótico precário.
Atualmente, eu dou mais importância a Pornochanchada do que eu dava antes, pois ela permitiu algo que nem o Cinema Novo conseguiu: público. Foi uma fase importante para os jovens que hoje têm a tecnologia disponível, excelentes roteiros que antes não tinham, para que possam encontrar uma linguagem como já estão encontrando de revalorizar o cinema brasileiro e o público é muito importante pra isso. Contudo, a Pornochanchada valorizava o público e o massificou algo para o qual o Cinema Novo não dava muito importância, já que era mais elitizado.
Entrevista realizada com Luciano Ramos no dia 03 de Novembro de 2008.

Luciano Ramos é sociólogo e jornalista. Dedica-se à difusão do conhecimento histórico desde 1970, quando escrevia e apresentava programas de História na Rádio e Televisão Cultura de São Paulo.
Na década de 1980, publicou duas coleções de livros didáticos de História Geral e do Brasil, além de redigir roteiros e coordenar a criação da série Telecurso Segundo Grau, para a Fundação Roberto Marinho. Na TV Globo, foi roteirista do Caso Verdade: A Padroeira, entre outros programas seriados.
Na década de 1990, coordenou as atividades de Comunicação Social no Ministério da Cultura e publicou obras de divulgação histórica, como Os Reinos Bárbaros, pela Editora Ática, e A Origem do Culto à Senhora Aparcida, pela Paulinas Editora.

1-Como você definiria a importância da Pornochanchada no cinema brasileiro na década de 70?
A Pornochanchada caracteriza a produção do cinema brasileiro daquela época. A modalidade mais comum era a comédia erótica e era direcionada a grande massa.
Essa época também é marcada pela produção em grande quantidade dos filmes desse gênero, cujos principais diretores e empresas de pequeno e médio porte, tinham como ponto de encontro e produção de filmes a Rua do Triunfo, que foi onde surgiu o Cinema da Boca.

2- Quais aspectos negativos a Pornochanchada atribuiu ao cinema brasileiro?
Havia naquela época a cota de tela, que obrigava todos os produtores de cinema, a exibirem certa quantidade de filmes de Pornochanchada. A Embrafilme, que era uma importante empresa da época, não apoiava ou investia na Pornochanchada, como muitos acham. Pelo contrário, apoiava mais filmes históricos, voltados para a realidade daquele tempo, mas era ao mesmo tempo obrigada a exibir filmes de Pornochanchada, devido à reserva de mercado, ou a cota de tela. Como conseqüência da cota de tela, a produção desses filmes, aumentou surpreendentemente. À medida que crescia a produção desses filmes, crescia o público. Porém, quando acabou a Embrafilme (logo após o término da censura no cinema), acabou a Pornochanchada. Pois, o público poderia ver filmes eróticos, mais apimentados, que eram exportados, ao invés de continuar vendo filmes pré- eróticos, que era o caso dos filmes da época.

3- Qual é a sua visão da Pornochanchada na década de 70, e atualmente como crítico de cinema?
Naquela época, quando jovem eu odiava os filmes de Pornochanchada, pois achava que eram chatos, e também por causa da obrigatoriedade dos cinemas em exibir esse tipo de filme, não tinha outras opções de filmes, isto é, era obrigado a assistir sempre o mesmo estilo de filmes. Lembro-me que eu costumava a tirar sarro e fazer piadas dos atores e dos filmes da época. Certa vez, tirei sarro da atriz Vera Fischer em um filme que ela aparecia meio gordinha, dizendo que ela iria participar de um dos concursos em que a criança mais gordinha, ganhava um prêmio.
Em contraste, hoje como crítico de cinema tenho um visão totalmente diferente da Pornochanchada. Pois, depois de estudar e analisar toda a sua história e importância, eu a vejo como um fenômeno curioso, com detalhes engraçados e que faz parte da cultura brasileira.

4-Você eliminaria da análise diacrônica do cinema brasileiro, o surgimento da Pornochanchada? Justifique sua resposta.
Não. Pois, hoje ao estudar o fenômeno e o impacto que a Pornochancha foi para o cinema brasileiro, reconheço a importância que ela teve para o mesmo, e que também faz parte da nossa cultura, pois foi uma característica dela na época. Além do mais, atualmente há grandes diretores e atores que começaram suas carreiras atuando no Cinema da Boca do Lixo, um exemplo deles é o Sílvio de Abreu.
Considerações Finais

Com base em nossa pesquisa e nas entrevistas feitas com os profissionais da área, podemos concluir que a eclosão da pornochanchada foi extremamente impactante na análise diacrônica do Cinema Brasileiro, dando a ele características e significados muito diferentes na década de 70 e atualmente.
A pornochanchada foi com certeza uma válvula de escape para os atores, atrizes e diretores de Cinema que viviam em plena ditadura, onde a censura estava presente em todo tipo de comunicação. Foi dessa forma, a única maneira da arte do Cinema e seus artistas sobreviverem. Ela se focou e deu importância a algo que nenhum gênero de cinema tinha dado antes: O público; algo que mais tarde se refletiria na análise histórica do Cinema Brasileiro.
Por outro lado, a pornochanchada no cinema brasileiro deixou a desejar nos aspectos de conteúdo de filmes (que na maioria eram sempre os mesmos temas e histórias), e principalmente em seu papel como parte do cinema, que seria formar opiniões, lutar pelos ideais da sociedade, investigar, conscientizar a pessoas, criticar governos, meios e pessoas, isto é, deixou de contribuir para o crescimento intelectual e da análise crítica da sociedade brasileira da década de 70, em pleno regime militar.
Outro aspecto questionado foi o fato de a mulher ser notada apenas como um ser sensual e sexual, sem ser explorado seu lado intelectual, sua feminilidade, o respeito e suas referências que não tivessem uma tendência pré-erótica. Embora não fosse totalmente erotizada, sua imagem era sempre ligada à sensualidade, à mulher como corpo, como desejo. As referências feitas a estereótipos como “gays”, “sapatões”, “gordinhas” de forma pejorativa é um assunto bem notado nesse período. Contudo, a pornochanchada tornou-se um símbolo de violência contra a mulher, ao crescimento intelectual e a certos estereótipos durante aquela época.
Concluindo, pudemos comprovar por meio das entrevistas e pesquisas realizadas, que embora a Pornochanchada não tenha tido um reconhecimento respeitável na época por seus espectadores e por profissionais de cinema, ela é hoje parte do cinema brasileiro, e trouxe características únicas ao mesmo, sendo dessa maneira, um fenômeno curioso e muito interessante, sendo respeitada e com uma visão muito mais ampla e positiva por parte dos intelectuais e de seus espectadores, que admitem que embora o cinema de 70 não tenha o melhor cinema que o Brasil já teve, foi o que seus artistas e produtores puderam fazer na época e é visto hoje como período essencial na história do Cinema no Brasil.







Referências Bibliográficas

CAPUZZO, Heitor. O Cinema - A Aventura do Sonho. Ed. Nacional, 1986.
SIMÕES, Inimá. O imaginário da Boca. São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, 1981.
Anexo Texto 1
Matéria publicada em 31/08/2008 às 10h35m - Globonline
Simone Mousse e Gustavo Leitão

Rio - As picardias eróticas que fizeram a alegria de multidões de espectadores dos anos 70 e 80 passaram um bom tempo como monumentos ao mau gosto nacional. Até voltarem à cena na faixa "Como era gostoso o nosso cinema", que exibe nas madrugadas títulos marcantes da pornochanchada, como "Oh! rebuceteio!", "Como consolar viúvas" e "Cada um dá o que tem". A programação virou um dos campeões de audiência do Canal Brasil.
Um dos grandes nomes do pornô-soft brasileiro, o produtor e ator Carlo Mossy, é prova desse renascimento. Depois que todas as suas 18 produções entraram na grade do canal, ele passou a receber convites para palestras, festivais universitários e acaba de relançar algumas de suas obras em DVD. Mossy acha que não há por que ter vergonha desse passado picante.
- Brasileiro não nasce com Bergman na cabeça. O grande lance do brasileiro é a sacanagem. Nessa época, nós tínhamos uma galinha dos ovos de ouro nas mãos - afirma o produtor, responsável por títulos como "Oh que delícia de patrão" e "As taradas atacam".
Mossy foi um dos nomes entrevistados pelo canal para a série "Foi bom pra você, benzinho?", em que o canal fazia um painel do sexo no cinema brasileiro da época. Além dele, a apresentadora Simone Zuccolotto falou com astros da pornochanchada como Matilde Mastrangi e David Cardoso.
- Uma das entrevistas foi marcada em São Paulo, num galpão sinistro, que no final das contas eu descobri que era um estúdio de filmes pornô último grau. Foi uma situação, eu ali num estúdio de filmes de sexo explícito com as pessoas passando em seus trajes de gravação e eu, toda pudica, tendo que manter a pose e fazer perguntas densas - lembra a apresentadora.
MOUSSE, Simone. LEITÃO, Gustavo. Referência em meios eletrônicos. Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/revistadatv/mat/2008/08/29/pornochanchadas_atraem_legiao_de_fas-548003260.asp
Anexo Texto 2
Pornochanchadas dos anos 70 voltam em trilha fictícia em 14-01-2005

O músico Che lança CD em homenagem as trilhas sonoras das pornochancahdas dos anos 70.

Sacanagem é coisa fina. Pelo menos na trilha sonora fictícia criada por Che, pseudônimo de Alexandre Caparroz, no CD "Sexy 70". Com o subtítulo de "music inspired by the brazilian sacanagem movies from the 1970s", o álbum traz um punhado de temas instrumentais que funcionam como uma "homenagem musical" à verdadeira era de ouro do cinema brasileiro, os doces anos das pornochanchadas.
A idéia nasceu há cerca de um ano como um plano para uma compilação de músicas tiradas dos filmes originais -plano esse impossibilitado pela dificuldade em se localizar todos os autores e músicos e pela inexistência dos tapes originais. A evolução do projeto para a criação de temas próprios inspirados nas antigas trilhas surgiu naturalmente.
"A idéia é que cada música seja a trilha sonora de uma pornochanchada fictícia", explica o compositemas muito definidos, era mais música de fundo, trechos, mas com momentos musicais interessantíssimos, com um clima temas muito definidos, era mais música de fundo, trechos, mas com momentos musicais interessantíssimos, com um clima muito particular. A minha intenção foi exatamente homenagear alguns desses momentos e dessas trilhas", destaca.
Com títulos citando explicitamente alguns desses filmes e/ou suas respectivas musas, o CD traz a recriação perfeita do clima da época, de sacanagem light. Um dos pontos altos do disco é a participação dos atores Paulo César Pereio e Helena Ramos, importados diretamente da lembrança de montes de marmanjos que aprenderam muito sobre a vida nas sextas-feiras à noite da TV Record, quando passava o clássico programa "Sala Especial".
Caparroz teve a idéia, escreveu frases e diálogos que seriam das tais pornochanchadas fictícias e convidou os dois atores para relembrarem seus tempos áureos. Os resultados foram frases como "sobe aí que eu te levo pra tomar um sorvete", ditas com o máximo de safadeza possível. "O Pereio adorou, mas quis ouvir as músicas antes. Ele se interessa, quer saber do que se trata e entende bastante de música. A Helena chegou dizendo que não imaginava ser musa e símbolo sexual e achando o texto um pouco pesado, mas quando eu apertei o "rec", a primeira coisa que ela fez foi soltar um gemido suspirado, depois ela entrou totalmente no espírito."
Tocando quase todos os instrumentos, Caparroz cita como referência jazzistas "sérios", como Ramsey Lewis, Milt Jackson e Bobby Timmons ("pelo groove"), além de Burt Bacharach ("pela sonoridade") e, claro, compositores de trilhas sonoras, como Henry Mancini e Ennio Morricone.
Com melodias levadas pelo vibrafone, baterias jazzísticas, trombones, sintetizadores antigos, órgãos e algumas programações, o som é capaz de lembrar ao mesmo tempo as divertidas trilhas dos anos 70 e projetos eletrônicos modernos, como Thievery Corporation. "Revitalizar é uma coisa, copiar exatamente o som é outra. Quis fazer música que soasse retrô, mas que fosse moderna", diz o músico.
Tornadas cult hoje, as pornochanchadas surgiram como válvula de escape do moralismo e da ditadura dos anos 70 e eram produzidas, em sua maioria, na Boca do Lixo de São Paulo, trazendo uma mistura de erotismo e comédia que arrastou multidões aos cinemas.
"Uma das coisas que mais me interessaram nessa idéia toda foi o fato de esses filmes não serem coisa pra ser levada a sério. Era um cinema de entretenimento, não adianta teorizar em cima. E o mesmo vale para o disco, é para ouvir e se divertir. O próprio conteúdo erótico obviamente não é sério, é de uma tremenda ingenuidade, como os filmes. O mais importante para mim era a memória. Qualquer um com mais de 30 anos se lembra do Pereio falando "eu te amo, porra!', conclui.

Fonte: Folha de São Paulo/ Ronaldo Evangelista/ 14 de Janeiro de 2005